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Macaco de pé sobre árvores

Postado em 12/11/2019


Fósseis Danuvius, incluindo ossos de, pelo menos, quatro indivíduos foram descobertos na Baviera. Crédito: Christoph Jäckle (Nature)
Por Fernando Reinach* (Estado de SP)

Por volta de 10 ou 15 milhões de anos atrás, alguns macacos deixaram de viver nas florestas, pulando de galho em galho, e passaram a viver na savana, se locomovendo sobre o solo plano. De alguma forma ainda desconhecida, essa linhagem começou a caminhar usando só as pernas, liberando os braços para outras funções. E foram esses macacos que deram origem aos nossos ancestrais.

Até hoje, a hipótese mais aceita é a de que eles desceram das árvores ainda usando os quatro membros para se locomover no solo e só depois adotaram a postura ereta. Gorilas e chimpanzés se deslocam dessa maneira – nas árvores, usam os quatro membros para se pendurar e, no solo, caminham usando a sola das patas traseiras e o dorso das mãos.

A novidade é o esqueleto de um macaco que viveu 11,6 milhões de anos atrás na região da Alemanha. Tudo indica que ele andava de pé nas árvores, como meu filho, que, para meu desespero, insistia em se equilibrar sobre os dois pés nos galhos, segurando um galho aqui e outro acolá.

A beleza dessa área de investigação científica é a possibilidade de deduzir a postura e o método de locomoção de um macaco analisando seu esqueleto. A inserção da coluna no crânio, a posição relativa dos ossos longos da perna em relação ao quadril e a inserção da coluna vertebral no quadril é muito diferente em quadrúpedes e bípedes.

Por exemplo, macacos que usam os quatro membros para se pendurar possuem um polegar capaz de agarrar um galho também nos membros inferiores, o que não ocorre no nosso caso. Nosso dedão do pé não consegue agarrar nada, mas, apoiado no chão, ajuda no equilíbrio. Assim, de posse de um esqueleto fóssil, os cientistas conseguem deduzir, com razoável precisão, seu modo de vida.

Os quatro esqueletos dessa nova espécie de macaco, denominada Danuvius guggenmosi, foram encontrados na Baviera. O animal deveria pesar entre 17 e 31 quilogramas e provavelmente medir por volta de um metro de altura. Seu esqueleto indica que ele tinha um peito largo e os braços longos pendentes, paralelos à coluna vertebral, como ocorre em humanos.

Além disso, a inserção da coluna vertebral no crânio e na bacia indicam que o corpo teria uma postura ereta parecida com a encontrada em seres humanos e muito diferente de todos os outros macacos conhecidos.

Todas essas características indicam que ele era um bípede, se locomovendo sobre duas pernas a maior parte do tempo. Se fossem esses os únicos achados, poderíamos supor que esse macaco vivia no solo, já tendo abandonado as árvores. Mas a estrutura dos pés conta outra história. Os pés são parecidos com os pés de macacos que vivem em árvores, com o polegar oposto aos outros dedos, que são longos e diferentes das espécies que deram origem ao Homo sapiens.

Essa estrutura dos pés não é condizente com um animal que caminhava no chão, no qual o pé é plano e os dedos ajudam no equilíbrio, mas são incapazes de agarrar um objeto. Os pés desse macaco são apropriados para agarrar galhos e troncos finos de árvore. Tudo isso sugere que ele andava sobre as árvores, de pé, usando os membros inferiores para agarrar os troncos e, provavelmente, braços e mãos para ajudar no equilíbrio. Algo parecido com o que as crianças fazem ao caminhar em troncos, com a vantagem e segurança de possuir pés que agarram o tronco.

Essa descoberta abre a possibilidade de nossos ancestrais, que desceram das árvores para viver nas planícies, já serem bípedes antes de descer das árvores. Nesse modelo, à medida que esses macacos ficavam mais tempo no solo, eles foram perdendo a capacidade de usar os pés para agarrar troncos e desenvolveram pés planos, semelhantes aos nossos.

São descobertas como essa que vão, aos poucos, nos ajudando a imaginar os possíveis caminhos que nos levaram das árvores às savanas. Saber mesmo como isso ocorreu só vai acontecer quando forem descobertos esqueletos desses nossos longínquos ancestrais.

MAIS INFORMAÇÕES: A NEW MIOCENE APE AND LOCOMOTION IN THE ANCESTOR OF GREAT APES AND HUMANS. NATURE.HTTPS://DOI.ORG/10.1038/S41586-019-1731-0 (2019)

*Biólogo