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Estudo demonstra que chimpanzés têm percepção muito pessoal do ritmo

Postado em 12/09/2022


(crédito: MICHAL CIZEK - AFP)

Por Agence France-Press

Cientistas seguiram um grupo de chimpanzés Waibira na floresta ocidental de Budongo, em Uganda, gravando e analisando os toques de sete machos

Inflando o tórax, com um grito gutural e segurando um instrumento, os chimpanzés, estes bateristas peculiares, executam um rufar de tambores usando as raízes grossas das árvores de uma floresta de Uganda, criando ritmos próprios, revelou um estudo publicado nesta terça-feira (6/9).

Cada um tem seu estilo: alguns batucam ao ritmo do rock e outros são mais “jazzy”, indica o estudo, publicado na revista britânica Animal Behaviour. Mas, além disso, estes animais sabem alterá-lo para não revelar onde estão.

Cientistas seguiram um grupo de chimpanzés Waibira na floresta ocidental de Budongo, em Uganda, gravando e analisando os toques de sete machos. Seus sons se propagam até mais de um quilômetro pela densa floresta e servem de meio de comunicação para os chimpanzés que se deslocam, segundo Vesta Eleuteri, principal autora do estudo.

Esta doutoranda afirmou ser capaz de explicar quem tocava sozinho há algumas semanas. “Tristan, o ‘John Bonham’ da floresta, toca o tambor muito rapidamente com muitos golpes separados regularmente”, disse Eleuteri à AFP, referindo-se ao famoso baterista da lendária banda de rock Led Zeppelin. Sua interpretação é “tão rápida que a gente mal consegue ver suas mãos”, acrescenta.

Mas outros chimpanzés, como Alf ou Ila, têm um estilo mais sincopado, com outra técnica: batem na raiz com os dois pés quase ao mesmo tempo, explicou a primatologista britânica Catherine Hobaiter, que supervisionou o estudo.

Solo de bateria

A pesquisa é obra de cientistas da Universidade de Saint Andrews, na Escócia, o que explica que vários chimpanzés receberam nomes de whisky, como o Talisker. Sabe-se há tempos que os chimpanzés tocavam tambor.

“Mas com este estudo, compreendemos que usam um estilo próprio quando buscam contato com outros indivíduos, viajam, estão sozinhos ou em grupos pequenos”, explicou à AFP Catherine Hobaiter.

Os cientistas também descobriram que os chimpanzés escolhem às vezes não firmar suas mensagens para não revelar sua identidade. “Têm a flexibilidade notável de expressar sua identidade e seu estilo, mas também de ocultá-la”, acrescentou a pesquisadora.

Embora muitos animais produzam sons que podem ser associados à música, como o canto dos pássaros, os chimpanzés talvez apreciem música de forma similar aos humanos.

“Penso que os chimpanzés, assim como nós, têm potencialmente uma percepção do ritmo, da música, algo que nos impacta em um nível emocional, como a emoção que provoca em nós um magnífico solo de bateria ou outro som musical importante”, disse a primatologista.

Os estudos sobre os chimpanzés se concentram em suas ferramentas ou sua alimentação, comentou.

“Quando nós pensamos na cultura humana, não pensamos nas ferramentas usadas, mas em como nos vestimos, na música que ouvimos”, destacou.

Os cientistas propõem estudar como outras comunidades de chimpanzés produzem sons. Eles estão interessados em uma espécie na Guiné, que vive em uma savana quase sem árvores que podem ser usadas como tambor.

“Temos indícios de que poderiam atirar rochas em outras rochas” para produzir sons.

“Literalmente, tocam rock”, disse Catherine Hobaiter, fazendo uma brincadeira com a palavra inglesa para rocha.

 

Estudo completo (em inglês) – https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0003347222002081