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Almost Human, de Alfred Fidjestøl: a história de um chimpanzé capturado entre dois mundos

Postado em 01/11/2019


Julius nasceu em zoológico norueguês. Foto de Billy Glad

Resenha de livro por Alyson Baker *

Almost Human é a biografia de Julius, um chimpanzé nascido no Boxing Day (Dia de Santo Estêvão) em 1979 no zoológico de Kristiansand, na Noruega, e que agora é o macho alfa da comunidade de chimpanzés do zoológico. Sua mãe é Sanne, também nascida em cativeiro. Ela não tinha ideia de como ser mãe e Julius teve que ser tirado do grupo de chimpanzés para sobreviver. Foi então criado pelas e pelas famílias do diretor do zoológico (Edvard Moseid) e do médico do zoológico. (Billy Glad), com o tratador Ǻse Gunn Mosvold sendo uma figura importante para Julius quando ele visitava o zoológico.

As famílias adotivas sabiam dos perigos de criar chimpanzés entre os humanos, mas, independentemente de intercalarem os cuidados de Julius e tomarem precauções como levá-lo de vez em quando de volta ao zoológico, ele era obrigado a se relacionar com suas ‘famílias’ e adotava comportamentos que o tornavam um estranho entre os outros de sua espécie. Julius é um exemplo perfeito de como, quando os chimpanzés entram na sociedade humana, seus relacionamentos com os seres humanos alteram sua natureza. As coisas deram certo para Julius, mas à custa de uma tragédia e à perda de vidas de chimpanzés. É verdade que ele acabou melhor do que seu meio-irmão Ola, que foi enviado para a Suécia, onde também se tornou uma estrela, mas acabou em uma gaiola de cimento em um zoológico na Tailândia.

Depois de tirá-lo da comunidade de Kristiansand, o plano era sempre reintegrá-lo. Mas uma coisa que o livro deixa claro são as dificuldades de reintegrar chimpanzés em comunidades cativas, especialmente machos maduros. As várias tentativas de reintegração incluíram medicar outros chimpanzés para conter seu comportamento e até sacrificar machos adultos saudáveis ​​para manter a paz na comunidade. Não há dúvida de que Mosvold, Glad e suas famílias se importaram profundamente com Julius, mas sua história destaca os aspectos antinaturais e cruéis de manter os chimpanzés em cativeiro.

A justaposição das dificuldades de Julius com sua persona pública é habilmente apresentada: “Era como se duas versões de Julius existissem agora e tivessem se separado, cada uma vivendo suas próprias vidas separadas: Julius o chimpanzé que se tornou o queridinho da mídia norueguesa, e de todas as crianças norueguesas que cresceram na década de 1980; e Julius o chimpanzé que era frequentemente deixado isolado em tristeza, que se tornou  “disfuncional e perigoso”, simbolizando a tragédia de chimpanzés em cativeiro.

Embora os desafios da reintegração de Julius sejam descritos, há histórias paralelas publicadas pela imprensa de festas de aniversário, exibições de pinturas, romances e casamentos – qualquer coisa “funcionasse bem na televisão”, além da produção de uma variedade de mercadorias de Julius. Ele levou milhares ao zoológico, incluindo celebridades e a realeza, e ganhou muito dinheiro para as atividades comerciais. E com essa alta exposição, há alguns momentos genuinamente assustadores, como quando Julius foge para a parte pública do zoológico, colocando as pessoas em risco – o zoológico sempre afirmando que tudo está bem, mas sendo possível ver o quanto poderia ter ocasionado uma catástrofe.

Há uma terceira história em Almost Human, a terrível situação que os chimpanzés enfrentam na natureza, com caça furtiva, perda de habitat e exposição a doenças humanas. Fidjestøl apresenta a visão de Jane Goodall de que muitos chimpanzés selvagens vivem em condições naturais arruinadas e com um medo constante dos seres humanos que poderiam até estar “melhor em zoológicos modernos”. Os jardins zoológicos públicos percorreram um longo caminho, com alguns acreditando que agora são a única esperança para a preservação de algumas espécies, mas que tipo de recinto pode ser projetado para chegar perto do ambiente selvagem ideal?

O livro parte da história de Julius para apresentar pesquisas sobre o comportamento e a ecologia dos chimpanzés, tanto em cativeiro quanto em estado selvagem, destacando as complexas experiências que os chimpanzés em cativeiro perdem. Ele fala de pesquisas que mostram que alguns comportamentos selvagens de chimpanzés datam de mais de 2000 anos e como essas ricas tradições culturais estão em perigo real de desaparecer para sempre – tradições culturais às quais chimpanzés como Julius nunca serão expostos.

Almost Human não idealiza a vida dos chimpanzés em estado selvagem ou em cativeiro, não oferece respostas aos dilemas das relações humano / chimpanzé, mas apresenta habilmente o problema do chimpanzé através da história de um chimpanzé. E a história de Julius continua: no início deste ano, após a publicação do livro, ele ficou gravemente doente depois que um visitante o envenenou propositalmente, jogando-lhe uma garrafa de água cheia de narcóticos. Mais uma vez ele sobreviveu. Almost Human é uma adição valiosa ao crescente corpo de obras populares sobre chimpanzés.

* Alyson Baker é bibliotecária em Nelson, na Nova Zelândia. Ela sempre se interessou pela vida selvagem e está chocada não apenas pelo caminho rápido previsto para a extinção de tantos animais, mas também pelo modo como muitos deles são tratados, especialmente os chimpanzés, nossos parentes mais próximos. Alyson foi voluntária no Santuário de Chimpanzés da Ilha Ngamba, em Uganda em 2017. Ela retornou a Ngamba em 2018 e também observou chimpanzés no Parque Nacional de Kibale, e está planejando voltar ao santuário e visitar a Reserva Florestal de Budongo no próximo ano.