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Em livro, bioquímico defende um darwinismo com espaço para Deus

Postado em 24/12/2018


Ilustração Carolina Daffara

Sem argumentos religiosos, Kenneth Miller exalta capacidades humanas como razão e livre-arbítrio

Reinaldo José Lopes

SÃO CARLOS – Poucos cientistas vivos hoje têm credenciais mais impecáveis que as do americano Kenneth Raymond Miller, 70, quando o assunto é defender a teoria da evolução.

A participação do bioquímico da Universidade Brown em dois julgamentos polêmicos na década passada ajudou, por exemplo, a barrar o ensino do criacionismo em escolas públicas dos EUA. Em seu mais recente livro, porém, Miller argumenta que também está na hora de salvar a biologia evolutiva de alguns de seus fãs equivocados.

O problema identificado pelo pesquisador é o mesmo que faz muitos fugirem das ideias de Darwin feito o diabo da cruz. Tal ojeriza à teoria da evolução é alimentada pela ideia de que, segundo o darwinismo, o ser humano “é só mais um animal”, ou a de que as noções de certo e errado, o amor à beleza ou mesmo o livre-arbítrio não passariam de ilusões embutidas em nossos cérebros de primata pela seleção natural.

Contra esses argumentos é que se insurge o ensaio de Miller, intitulado “The Human Instinct” (“O Instinto Humano”, ainda sem edição brasileira). Para o pesquisador, os elementos tradicionalmente associados à posição privilegiada do Homo sapiens na Criação —como a razão, a consciência e o livre-arbítrio, citados no subtítulo do livro— são realmente excepcionais. Em outras palavras, tratá-los como ilusões ou detalhes irrelevantes de uma espécie indistinta de todas as outras equivaleria a trair a própria ciência.

Para defender essa posição, no entanto, Miller não recorre, em nenhum momento, ao resgate de uma visão explicitamente religiosa ou sobrenatural da condição humana. Embora seja católico, seu santo padroeiro, ao menos neste livro, é um agnóstico, o astrônomo Carl Sagan (1934-1996), segundo o qual o elemento mais extraordinário da nossa espécie é o fato de que, de certa maneira, somos um pedaço do Universo que passou a compreender a si mesmo.

Ou, como resume o próprio Miller: “O que é realmente notável é que uma mente feita de átomos foi capaz de descobrir o átomo; que uma criatura composta de células foi capaz de descobrir, dissecar e entender as células; que um animal produzido pela evolução conseguiu identificar esse mesmo processo”.

Feito um refrão, esse conceito retorna em quase todos os capítulos do livro. Em parte, a obra pode ser lida como um exemplo do que Miller costuma fazer de melhor: explicar com clareza e graça a versão mais moderna da teoria da evolução. Fazendo jus à sua formação de bioquímico, os trechos que detalham as pistas moleculares que unem o DNA do ser humano ao dos demais primatas são particularmente iluminadores.

Como a citação acima mostra, o pesquisador não recua diante dos argumentos cada vez mais fortes em favor do fisicalismo, ou seja, da demonstração de que a mente humana é essencialmente o resultado de operações físicas realizadas pelas células do cérebro. Amor, ódio, empatia, altruísmo, coragem —as da psiquê humana nascem da bioquímica cerebral, explica.

É aqui, porém, que o pesquisador apresenta o ponto de sua argumentação que o diferencia de figuras que poderíamos chamar de darwinistas radicais, como o zoólogo Richard Dawkins e o neurocientista Sam Harris. A tese pode ser resumida em duas palavras: propriedades emergentes.

Tais propriedades surgem da interação de elementos subjacentes a elas, mas não podem ser previstos simplesmente pela soma deles.

Tomemos como exemplo o cérebro de um macaco-prego, o de um chimpanzé e o de um ser humano.

Todos são formados por neurônios similares, mas não há nada nessas células que garanta que o cérebro de um chimpanzé lhe permita se reconhecer no espelho, enquanto o de um ser humano permite tanto o autorreconhecimento quanto a produção de uma linguagem com sintaxe, e o de um macaco-prego, nenhuma das duas coisas.

Isso significa, diz Miller, que não se pode negar a possibilidade de livre-arbítrio humana apenas porque ela deriva de um cérebro que está sujeito às leis da física (as quais, pelo que sabemos, nunca mudam). As duas coisas coexistem porque derivam de níveis diferentes da mesma realidade.

E, embora a seleção natural tenha moldado o comportamento e as emoções humanas de variadas formas, as diferentes culturas também têm mostrado capacidade de canalizar e transformar esses elementos básicos do funcionamento da mente.

Faz todo o sentido evolutivo cuidar dos bebês que geramos e dos nossos parentes próximos (ajudar a espalhar cópias dos nossos próprios genes), mas as pessoas também dão rotineiramente seu dinheiro e seu tempo para ajudar completos desconhecidos porque aprenderam que é a coisa certa a fazer, por exemplo.

Acima de tudo, o livro é uma celebração da beleza que é possível vislumbrar quando o ser humano se vê como parte do épico de 4 bilhões de anos de história da vida, vendo-se conectado a tudo o que vive ou viveu. É um quadro de tirar o fôlego, diz Miller —e deveria nos inspirar a cuidar para que ele continue a florescer, por sermos as únicas criaturas capazes de entendê-lo.

The Human Instinct: How We Evolved to Have Reason, Consciousness, and Free Will
Autor: Kenneth Miller. Editora: Simon & Schuster. R$ 47,90 (ebook, 305 págs.)

Fonte: 

https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2018/12/em-livro-bioquimico-defende-um-darwinismo-com-espaco-para-deus.shtml