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A cultura do cativeiro

Postado em 04/02/2015

Jiboia rara Extra
Princesa Diamante (Jiboia rara/ Jornal Extra)

O artigo a seguir, redigido por Carlos Magno Abreu, Analista Ambiental do IBAMA, traduz a terrível frustração de um grupo de membros esforçados desse Instituto na luta inglória para salvar milhões de espécies de animais silvestres do cativeiro que pairam sobre suas vidas em mãos de traficantes, falsos criadouros conservacionistas e criadouros comerciais criminosos, de mãos dadas com os traficantes de animais de sempre.

Qualquer cativeiro para seres que nasceram para viver livres é ruim, porém, mil vezes ruins são os zoológicos e criadouros comerciais, que usam e abusam dos animais para entretenimento do público humano, ignorante em todo sentido.

Leiam esta matéria, reflitam e rechacem qualquer cativeiro de animais que não merecem esse destino.

Dr. Pedro A. Ynterian

Presidente, Projeto GAP Internacional

 

http://somosunsbossais.blogspot.com.br/2015/02/reflexoes-ambientais-sobre-o-boitata-e.html

Reflexões ambientais sobre o Boitatá e a serpente que virou colar

     Antes da descoberta do Brasil, os índios Tupi-Guarani acreditavam que o Boitatá, uma enorme serpente branca de fogo, saia à noite para proteger a floresta dos mal feitores. Hoje, mais de quinhentos anos depois, nossa serpente branca, único exemplar do planeta, foi traficado para os EUA, e pelo visto de lá não mais retornará. Sua prima Salamanta, que por pura infelicidade nasceu em cativeiro, hoje serve de adorno exclusivo para pescoços magistrais. Tristes tempos.
     Há poucos dias, o “Bom Dia Brasil” veiculou uma serie de três reportagens sobre o tráfico de animais silvestres, o cativeiro doméstico de nossa fauna e das óbvias e intricadas relações entre eles e o costume brasileiro de manter animais selvagens aprisionados. Acobertados pela tênue proteção de que se trata de um hábito cultural que remonta ao descobrimento do Brasil, tal cativeiro, mesmo que raramente, ainda é revestido por um verniz de legalidade. Tristes tempos.
     A mim parece óbvia a comparação com outro hábito brasileiro, que também remonta ao descobrimento do Brasil e que por um longo período, também foi revestido de legalidade. José de Alencar, um dos maiores romancistas do Pais, considerado o patrono da literatura nacional, escreveu várias cartas ao Imperador D. Pedro II, veementemente discursando a favor da manutenção deste hábito e dos seus benefícios para toda a sociedade. Tais cartas foram reunidas em um livro publicado em 2008 sob o titulo “Cartas a Favor da Escravidão”, no qual, dentre outras, pode-se ler citações que hoje nos soariam absurdas (“… Não havia outro meio de transportar aquela raça [os africanos] à América senão o tráfico. … Sem a escravidão e o tráfico que a realizou, a América seria ainda hoje um vasto deserto“)
     Guardadas as devidas proporções, o mesmo ocorre hoje com o cativeiro doméstico de nossa fauna nativa. Hábito cultural eventualmente tangenciado pela legalidade, que alimenta e faz crescer o tráfico de animais silvestres, tendo seu poder de destruição magnificado através do tráfico internacional, onde animais raros ou de espécies ameacadas de extinção atingem valores monetários que ultrapassam o absurdo.
     Como claramente exibido nas reportagens, em virtude dos possíveis altos ganhos, associados a penas baixas ou inexistentes, o crime ambiental, embora ainda usual em regiões humildes e afastadas dos grandes centros, está cada vez mais semelhante ao crime comum,
sendo corriqueiro o uso de armas de fogo e não raro que agentes de fiscalização sejam recebidos de forma violenta e os animais cativos descartados ou mortos numa vã e cruel tentativa de impedir a ação fiscalizatória.
     Desta forma, nas ações contra crimes em flagrante delito, os agentes ambientais federais do IBAMA, realizam as abordagens seguindo o procedimento operacional padrão de policiamento, sempre visando a proteção do agente, de toda a equipe de fiscalização e do cidadão.
    Sem questionar a atual legalidade do comércio de animais silvestres nascidos em criadouros devidamente autorizados, é falacioso tentar convencer as pessoas de que esses animais são diferentes dos nascidos em vida livre. Não o são. O fato destes animais terem nascido em cativeiro não altera seus instintos, nem suas necessidades naturais. Aves nascidas em gaiolas continuam tendo a necessidade de voar. Macacos mantidos a vida inteira acorrentados continuam tendo a necessidade de pular de galho em galho, de formar grupos e de conviver com seus semelhantes. O mesmo vale para jabutis, serpentes e qualquer outra espécie selvagem.
     O que os diferencia é apenas o fato destes infelizes animais nascidos sob o jugo dos grilhões, jamais terem tido a oportunidade de viver livremente na natureza, de modo que suas habilidades e características comportamentais foram subjugadas e mutiladas pelo frio metal das grades do cativeiro. Não há que se aceitar como natural essa “Lei do Ventre Cativo” que, ao contrário da “Lei do Ventre Livre”, através da qual foram libertados os filhos dos escravos, agora os sentencia a prisão perpétua. Muito mais do que direitos, por termos violentamente retirado a liberdade de seus antepassados, o que temos é uma enorme e impagável dívida com esses animais que já nascem condenados ao cárcere perpétuo.
     A série de reportagens também aborda o caso da serpente brasileira traficada para os EUA em 2009 e avaliada no mercado negro em US$1.000.000,00 (um milhão de dólares). Trata-se de um caso emblemático e de uma das maiores operações ja deflagrada pelo IBAMA e Polícia Federal, com o apoio do Ministério Público Federal e do Ministério das Relações Exteriores, com mandados judiciais cumpridos simultaneamente no Brasil e nos EUA, com desdobramentos em diversos outros países, espalhados por pelo menos três continentes. Os acusados brasileiros e americanos estão sendo criminalmente processados e, se ainda não foram condenados, se deve apenas ao fato do tráfico de animais silvestres, mesmo o internacional, ainda ser visto, tanto no Brasil, como nos EUA e em outros paises, como um crime de baixo poder ofensivo.
     Contudo, a referida ação, que em alusão à lenda Tupi-Guarani foi nomeada de Operação Boitatá, já é internacionalmente conhecida, tendo sido veiculada no Brasil em uma reportagem no Fantástico, nos EUA no canal Fox e em uma reportagem da National Geographic, além de ter seus detalhes revelados no livro “O Brasil na Rota do Tráfico Internacional de Animais Silvestres – A História da Operação Boitatá e a Serpente de Um Milhão de Dólares”, que se encontra em processo de virar filme.
     Quanto à serpente que virou colar, acredito que nada possa ser dito de melhor forma do que o que ja foi, há décadas, dito pela escritora Alice Walker “Os animais do mundo existem para seus próprios propósitos. Não foram feitos para os seres humanos, do mesmo modo que os negros não foram feitos para os brancos, nem as mulheres para os homens
     Finalizando, mais uma vez exponho meus mais sinceros e orgulhosos elogios ao agente Roberto Cabral e a toda a equipe do IBAMA, assim como ao “Bom Dia Brasil”, ao repórter Carlos De Lannoy e todos os seus colaboradores, pela série de reportagens que visam exatamente expor a toda a sociedade os reais danos do hábito cultural de manter animais silvestres em cativeiro e de sua total interdependencia com o trafico de animais silvestres. Tais reportagens propiciaram que um importante tema viesse à tona, contribuindo sobremaneira para uma sociedade mais bem informada, crítica e inteligente.
     Ainda, estendo meus elogios à repórter Ana Paula Araújo, que com sensibilidade espontânea percebeu instantaneamente que o cativeiro doméstico de animais silvestres se sobrepõe à mera legalidade, sendo muito mais um problema de ética e de questionamento da moralidade deste nefasto hábito cultural, que nos remete aos tempos antigos da escravidão.
     Tristes tempos, onde ainda há quem defenda que seres vivos sencientes e inocentes possam ser mantidos em cativeiro por pura vaidade de quem compra e ganância de quem vende. Tal atitude “coisifica” nossa tão rica e biodiversa fauna, reduzindo-a a mera mercadoria de consumo, impondo sofrimento diário a milhões de animais e ceifando incontáveis vidas inocentes de nosso já barbaramente violentado meio ambiente.
    “E aquilo que nesse momento se revelará aos povos

     Surpreenderá a todos não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio
” (“Um índio” – Caetano Veloso)

     O óbvio!!?
     “Seja a mudança que você deseja para o mundo” (Mahatma Gandhi)
Carlos Magno Abreu
Analista Ambiental IBAMA
Doutorando em Dinâmica dos Oceanos e da Terra UFF
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Bom Dia Brasil 26jan2015
Bom Dia Brasil 27jan2015
Bom Dia Brasil 28jan2015
Livro “O Brasil na Rota do Tráfico Internacional de Animais Silvestres – A História da Operação Boitatá e a Serpente de Um Milhão de Dólares”
(versão em inglês)
08jan2013 KSL “Brother, sister allegedly smuggled rare boa constrictor into US”
08jan2013 The United States Attorney’s Office “Brother And Sister Charged With Conspiring To Unlawfully Import Rare White Boa Constrictor Into The United States From Brazil”
09jan2014 Canal “Fox13” (em inglês)
07mai2014 National Geographic – Laurel Neme
“Brazilian Investigators Cracking the Case of Missing One-of-a-Kind Snake – Search continues for a rare boa constrictor stolen from Brazil to breed for the reptile trade.”

 Notícia relacionada:

http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2013/10/jiboia-rara-que-pode-custar-ate-us-1-milhao-esta-desaparecida.html