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Chimpanzés usados em experiências vão para santuários, mas lentamente

Postado em 10/11/2017


Chimpanzé de casa nova - Melissa Golden/ The New York Times

JAMES GORMAN
DO “NEW YORK TIMES”, EM BLUE RIDGE, GEÓRGIA

Bo passou a viagem de 16 horas, iniciada na Louisiana, olhando a paisagem pela janela, cochilando e relaxando.

Ele estava viajando em companhia de cinco outros chimpanzés machos do Centro de Pesquisa New Iberia, em Lafayette, Louisiana, nos EUA, onde os animais eram parte de uma colônia de quase 200 chimpanzés mantidos para pesquisas biomédicas e em outras áreas.

Durante a viagem, alguns dos outros chimpanzés uivavam, irrequietos e preocupados. Mas não Bo. “Ele é o melhor”, disse o motorista do caminhão.

Os animais chegaram ao Project Chimps (projeto chimpanzés, em tradução livre), um santuário na ponta sul das montanhas Blue Ridge, cerca de 160 quilômetros ao norte de Atlanta, às 6h30 min de um dia de primavera, alguns meses atrás.

O pessoal do santuário abriu o caminhão e começou a transportar as gaiolas dos chimpanzés para dentro do complexo; os animais gritavam e uivavam, ansiosos e incertos quanto ao que estava acontecendo.

A primeira gaiola foi aberta em uma espécie de antecâmara, e um chimpanzé chamado Jason foi o primeiro a sair para conhecer seu novo lar, correndo de um jeito aparentemente nervoso pela pequena porta que conduzia ao grande habitat reservado a eles.

O espaço cercado é definido como uma “villa”, e é uma grande jaula de metal com cerca de 140 metros quadrados e dois andares de altura, dotada de plataformas metálicas montadas em níveis diferentes.

Jabari, o segundo animal a sair da gaiola, caminhou lentamente na direção de Jason, no novo ambiente, mas os dois mantiveram alguma distância. Lance foi o terceiro a sair, e hesitou em deixar a pequena antecâmara. A equipe teve de esperar por meia hora até que ele ganhasse coragem.

Para encorajar Lance, eles decidiram permitir a entrada de Bo, o chimpanzé dominante do grupo.

Bo saiu da gaiola caminhando com a ajuda das patas dianteiras, de modo calmo e confiante –como se estivesse desfilando, seria possível dizer–, e entrou no grande cercado. Lance o seguiu imediatamente. E aí os chimpanzés começaram a se abraçar.

Eddie e Stirlene, os dois últimos animais, passaram pela entrada e foram recebidos com mais abraços. O alívio e alegria do grupo foi tão contagiante que todos os humanos presentes abriram sorrisos. Os chimpanzés estalaram os lábios em aprovação, e pegaram na genitália uns dos outros.

“Esse comportamento é normal quando eles querem reconfortar um companheiro”, disse Jen Feuerstein, a principal administradora do santuário.

Bo estava com eles, e tudo estava bem.

E provavelmente tudo continuará bem, em longo prazo. Para todos os efeitos, a era das pesquisas biomédicas com chimpanzés está encerrada, nos Estados Unidos. Dados os quase 100 anos de história das experiências com chimpanzés, as mudanças parecem ter vindo bastante rápido, assim que começaram.

Em 2011, o diretor dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos, Francis Collins, declarou que a instituição deixaria de financiar pesquisas biomédicas novas que usassem chimpanzé, os quais ele descreveu como “nossos parentes mais próximos no reino animal” e como merecedores de “consideração e respeito especiais”.

Os comentários de Collins causaram choque, mas ao mesmo tempo pareceram óbvios. Jane Goodall, a famosa primatologista, e outros já haviam mostrado ao mundo a riqueza da inteligência e da vida social dos chimpanzés; a biologia molecular revelou que eles compartilham 98% do DNA dos seres humanos. Mas a elite das pesquisas biomédicas enfatizou por muito tempo a importância das pesquisas com animais.

A decisão de Collins refletia as preocupações éticas entre os cientistas quanto ao tratamento de animais tão sociais e tão inteligentes. Além disso, no nível prático, cuidar dos chimpanzés custa caro, e eles nem sempre oferecem um modelo adequado para o estudo de doenças humanas. E também atraem muita preocupação do público.

Em 2015, os NIH já haviam passado por diversos estágios de seu processo decisório e concluído que aposentariam todos os chimpanzés usados em suas pesquisas, sem reter qualquer animal para uso em emergências –em caso de uma epidemia humana, por exemplo. A agência é dona de 220 chimpanzés, além daqueles que já foram encaminhados a santuários, e sustenta outros 80, que também serão aposentados.

Este ano, o Serviço de Fauna e Pesca dos Estados Unidos classificou os chimpanzés como espécie ameaçada, cancelando uma já antiga isenção para os chimpanzés cativos, usada para autorizar experiências biomédicas.

A decisão tornou esse tipo de pesquisa ilegal se não houver uma licença especial, o que requereria que as pesquisas beneficiem os chimpanzés. Pesquisas médicas bancadas por capital privado e usando chimpanzés que sejam propriedade privada também foram efetivamente proscritas.

Cerca de 547 chimpanzés continuam detidos em instituições de pesquisa, de acordo com o ChimpCARE, site que rastreia todos os chimpanzés dos Estados Unidos. Alguns deles são propriedade dos NIH ou são sustentados pela instituição, e outros são propriedade de institutos de pesquisa como o New Iberia, que é parte da Universidade da Louisiana em Lafayette.

Todos os chimpanzés do governo serão encaminhados ao Chimp Haven, um santuário em Keithville, Louisiana, onde terão vida social plena e poderão se movimentar ao ar livre.

Alguns críticos argumentam que o processo vem sendo desnecessariamente lento, mas os NIH dizem que as transferências estão acontecendo rápido, agora. O santuário aceitou 14 chimpanzés nos dois últimos meses e está esperando novos animais antes do final do ano.

O Chimp Haven, com uma equipe de 50 funcionários, mais de 200 chimpanzés residentes, e 30 anos ou mais de história, tem muita experiência no trato dos chimpanzés aposentados. O pessoal os mantém em grupos mistos de diversos tamanhos e monitora cuidadosamente suas interações sociais.

Para impedir que novos chimpanzés sejam gerados e tenham de passar sua vida em cativeiro, o Chimp Haven realiza vasectomias em todos os machos. Mas “vasectomias às vezes falham”, disse Raven Jackson-Jewett, a veterinária residente do santuário. “Foi Conan que nos ensinou essa lição.”

Conan passou pelo procedimento mas mesmo assim gerou três filhotes, entre os quais Tracy, 10, que é um dos animais favoritos dos visitantes.

Jackson-Jewett disse que, por causa de Conan, o Chimp Haven aprendeu que vasectomias falham mais nos chimpanzés do que nos seres humanos.

A equipe mudou a técnica usada no procedimento, realizou novas vasectomias em 75 chimpanzés com o novo método, e não houve gestações desde então.

O santuário também a aprendeu a cuidar de chimpanzés de saúde frágil. Muitos animais foram infectados com o HIV e o vírus da hepatite em laboratórios, para estudos de vacinas, e alguns sofrem de diabetes (não relacionada a experimentos médicos).

Muitos dos animais são velhos. Alguns chegam já perto dos 50 anos, e a expectativa de vida de um chimpanzé em cativeiro é de entre 50 e 60 anos. Alguns chimpanzés são considerados velhos demais para enfrentar o estresse de serem transferidos a um santuário.

A maioria dos chimpanzés de laboratórios privados também estão sendo enviados a centros de aposentadoria. O New Iberia enviou 22 animais ao Project Chimps, onde Bo e seu grupo agora vivem, mas ainda tem quase 200 outros animais.

O complexo do Project Chimps, que no passado alojava gorilas, ainda está sendo reformado para uso por chimpanzés. Eles terão um espaço para brincar a céu aberto com área de mais de três hectares, oferecendo árvores, um riacho e um gramado –assim que as muralhas forem consertadas. (Diferentemente dos gorilas, os chimpanzés são ágeis nas escaladas.)

Os animais que ficaram no New Iberia não estão isolados. Vivem em grupos em jaulas em forma de domo, ao ar livre. Cada domo tem cerca de 90 metros quadrados de área.

Ainda que os chimpanzés usados em pesquisas fossem alojados em jaulas menores, no passado, e vivessem isolados quando estavam sendo usados em experimentos, as práticas mudaram. Os laboratórios e santuários reconheceram que mantê-los sozinhos é crueldade.

Os únicos outros chimpanzés que são propriedade privada e continuam em instituições de pesquisa incluem 46 animais do Centro Nacional Yerkes de Pesquisa de Primatas, da Universidade Emory em Atlanta. O Yerkes está procurando ativamente por instalações que abriguem seus chimpanzés na aposentadoria, e encontrou lugares para alguns. Sete foram enviados ao zoológico de Chattanooga, e outros para um centro na Inglaterra.

Entre os ativistas pelo bem-estar animal, parte do entusiasmo gerado pelas decisões do governo alguns anos atrás terminou inevitavelmente por arrefecer, e foi substituído pelo reconhecimento das dificuldades logísticas, da necessidade de arrecadação continuada de fundos, e de que ocasionais obstáculos continuarão a aparecer.

“A necessidade de paciência foi uma grande lição para mim”, disse Laura Bonar, diretora de programas da Animal Protection New Mexico, em entrevista. Bonar foi uma das ativistas que trabalharam em favor das decisões que puseram fim aos experimentos.

A paciência é útil mesmo no caso de chimpanzés como Bo, que já foram transferidos a santuários. Em breve, talvez antes do final do ano, Bo e outros chimpanzés que estão no santuário devem viver pela primeira vez em suas vidas sem a presença de barras de aço os restringindo.

Eles estão se saindo bem. Janie Gibbons, uma das funcionárias do centro que tomam conta dos chimpanzés, disse que Bo continua a liderar pelo exemplo, como fez recentemente quando o grupo encontrou algo que jamais havia visto.

Na primeira vez que os chimpanzés receberam tomates para comer, ficaram intrigados. “Bo é muito corajoso e experimenta as coisas primeiro”, disse Gibbons. “Ele pegou um tomate e, meticulosamente, comeu primeiro a casca e depois o fruto”.

Confiantes em que os tomates eram seguros, os demais seguiram o exemplo do líder. Mas não todos de uma vez. Jabari jogou seu primeiro tomate na parede, ainda que ele e os demais chimpanzés tenham se reunido em torno de Bo e assistido com a maior atenção possível a ele comendo aquela fruta desconhecida.

Agora os chimpanzés todos comem tomates como se fossem maçãs. E é isso que o futuro pode reservar aos chimpanzés: espaços abertos e tomates.

Mas vai demorar um pouquinho.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Fonte:

http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2017/11/1934077-chimpanzes-usados-em-experiencias-vao-para-santuarios-mas-lentamente.shtml